Ampliação da licença-paternidade aumenta também o debate

Ampliação da licença-paternidade aumenta também o debate

Publicado em 21 de julho de 2026
Por Luiz Antonio Müller Marques

A ampliação da licença-paternidade no Brasil, sancionada pelo presidente Lula, trouxe mais do que um ajuste legal: escancarou um velho problema cultural. Pela nova legislação, o período passa a 10 dias, com ampliação gradual até atingir 20 dias até o fim da década. É pouco, se comparado a padrões internacionais, mas já suficiente para provocar um fenômeno curioso — e revelador.

Aparentemente, a chegada de um filho ainda disputa espaço com a possibilidade de “negociar” dias de folga. A cena tem um certo humor involuntário, mas revela algo mais profundo: muitos ainda enxergam a licença-paternidade como um benefício individual e não como um direito vinculado ao cuidado compartilhado.

O contraste fica ainda mais evidente quando se observa que servidores públicos federais já convivem com uma realidade mais avançada desde 2016. O Decreto nº 8.737 instituiu a possibilidade de prorrogação da licença-paternidade por mais 15 dias, além dos cinco já previstos na legislação, totalizando 20 dias — desde que requerida no prazo adequado e com a condição de não exercer atividade remunerada no período. Ou seja: não é novidade absoluta, mas ainda parece novidade cultural.

E talvez seja esse o ponto central. A ampliação da licença não é apenas um ajuste de dias no calendário. É uma tentativa — ainda tímida — de enfrentar uma desigualdade histórica: a sobrecarga feminina no cuidado com os filhos.

Enquanto muitas mulheres retornam ao trabalho acumulando jornadas, os homens ainda parecem negociar sua participação como se fosse opcional. Não por má-fé, necessariamente, mas por uma construção social que nunca exigiu deles o mesmo nível de envolvimento.

A nova legislação aposta justamente na ideia de que políticas públicas podem induzir mudanças de comportamento. Que, ao garantir tempo, o Estado também incentive presença. E que, com o tempo, cuidar deixe de ser visto como exceção e passe a ser regra.

Até lá, talvez ainda vejamos perguntas sobre “vender a licença” ou “evitar ficar em casa”. Mas, se o debate já causa esse incômodo — e até um certo constrangimento coletivo — é sinal de que algo começou a mudar. E, convenhamos: trocar fralda não deveria ser mais difícil do que negociar férias.

Sócio de Wagner Advogados Associados

Fonte: Jornal do Comércio
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