Cafeteria em Porto Alegre implementa escala 4×3 e aumenta faturamento em 20%

Cafeteria em Porto Alegre implementa escala 4×3 e aumenta faturamento em 20%

Publicado em 8 de julho de 2026

A redução da jornada de trabalho se tornou uma pauta recorrente em debates políticos ao redor do Brasil. Aprovada na Câmara dos Deputados em maio, a PEC 221/2019, que busca acabar com a escala de trabalho 6×1 no País, seguiu para o Senado, mas segue sem data para votação.

Enquanto a população aguarda a resolução do pleito, especialistas divergem sobre as consequências da implementação da medida. Quem é a favor destaca a possibilidade de ganho de bem-estar e qualidade de vida que uma escala mais flexível poderia proporcionar. Os críticos, por sua vez, demonstram receio de uma possível queda de produtividade, ainda mais em um momento em que empresas enfrentam dificuldades para contratar.

Em meio a tanta discussão, um empresário porto-alegrense resolveu se adiantar. Enquanto o País debate a implementação de uma escala 5×2, Lucas Eibs, dono da cafeteria Porto Farrô, localizada na avenida Venâncio Aires, nº 1031, apostou na escala 4×3 como modo de proporcionar mais qualidade de vida a seus funcionários e inovar no mercado, saindo na frente da maioria das empresas.

A transição para o novo modelo não ocorreu da noite para o dia. Quando o Porto Farrô abriu as portas, em 2021, a equipe operava no tradicional esquema 6×1, que na época, segundo Eibs, parecia ser a única possibilidade viável no mercado. A cafeteria conseguiu migrar para o modelo 5×2 posteriormente, mas foi a partir de referências do setor que surgiu o desejo de inovar ainda mais.

“Quando começamos a ouvir falar sobre a implementação de projeto de lei para proibir a 6×1 nós já estávamos em 5×2. Assim, quisemos dar um passo ainda mais à frente e pensar em como migrar para 4×3”, relata o empreendedor.

Nesse período operando na nova escala, o que mais chamou a atenção de Eibs foi o impacto financeiro positivo para o negócio e para os colaboradores. Ao contrário do que os críticos da redução de jornada temem, a mudança não trouxe perdas de renda.

A carga horária semanal da equipe caiu de 44 para 38 horas sem nenhuma redução salarial e além disso, a contratação de três novos funcionários permitiu que a cafeteria passasse a abrir todos os dias da semana, resultando em um aumento de aproximadamente 20% no faturamento.

“Conseguimos implementar uma espécie de bônus por faturamento. Então, quanto mais a gente fatura, mais todo mundo ganha uma participação nos lucros”, comemora o empreendedor.

Lucas Eibs, dono da cafeteria Porto Farrô, apostou na escala 4×3 como modo de proporcionar mais qualidade de vida a seus funcionários e inovar no mercado

REPRODUÇÃO/RUY CASTRO/PORTO FARRÔ

Entre os pontos positivos, além do aumento da renda e da grande aceitação do público, Eibs percebeu melhorias claras na operação do dia a dia. Houve economia em custos invisíveis e na redução do pagamento de vale-transporte, já que os funcionários se deslocam menos dias por mês. Além disso, ele destaca uma clara melhoria no ambiente de sua operação.

“Tivemos menos rotatividade, menos atestados. As pessoas, tendo uma qualidade de vida melhor, elas têm mais vontade de estar ali no trabalho quando tem que estar”, observa.

Apesar do sucesso, a implementação trouxe alguns desafios, especialmente operacionais. Um dos problemas citados pelo empreendedor foi a criação de uma escala rotativa. Segundo ele, o fato da escala não ser fixa significa que um funcionário pode folgar de sexta a domingo em uma semana e de terça a quinta na semana seguinte, o que fez com que a organização fosse bastante complexa em um primeiro momento.

O empreendedor afirma que “quebrou muita cabeça” para desenhar os horários, pois o grande desafio era garantir que nenhuma posição de trabalho ficasse desfalcada em semanas específicas. Apesar disso, passado o período de adaptação, a equipe se acostumou e a gestão ficou “mais tranquila”.

Curiosamente, outro obstáculo observado por Eibs foi a dificuldade da equipe em lidar com o tempo livre. “Percebemos que as pessoas não sabem descansar, elas se culpam nos dias de folga, ou elas ficam entediadas”, conta Eibs, revelando que a empresa precisou incentivar ativamente os funcionários a aproveitarem o descanso.

Apesar de sua boa experiência e do otimismo em relação à uma jornada de trabalho de 3 dias, o dono do Porto Farrô deixou um conselho realista para outros empreendedores que desejam seguir o mesmo caminho, reconhecendo que a mudança pode ser um grande obstáculo para negócios com estruturas muito pequenas.

“Às vezes vejo lugares que são estruturalmente muito pequenos. E eu vejo que do pequeno vem a melhor intenção, mas aí vem a maior dificuldade: aqui sou só eu e um funcionário, como é que eu viabilizo isso? Então eu digo que não dá para romantizar e dizer que é super fácil fazer, mas, ao mesmo tempo, com intenção, eu acho que sempre dá para achar algum caminho.”

Mesmo assim, ele encoraja a tentativa por meio de um planejamento sólido que envolva toda a equipe, e reforça que, na sua opinião, uma mudança é possível.  “6×1 eu  particularmente considero inaceitável nos dias de hoje, mas acho que 5×2 tem sido muito viável e 4×3 é um desafio, mas também é possível. Se bem desenhado, se bem estruturado e desenhando juntos também, inclusive uma projeção de maior faturamento”, afirma.

Fonte: Jornal do Comércio
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